segunda-feira, 8 de junho de 2020

Carta ao "Novo Normal"

Ao que chamaremos "Novo Normal"? De onde vem essa expressão e quem ousou se alegrar ao usá-la? Porque será "Novo Normal", se o que é normal, de fato, nunca foi cumprido e nem se quer fora conhecido?

Será o "Novo Normal" que mudará, então, nossas vidas?! Será ele que falta para que homens e mulheres ajam normalmente?! Quando foi definido um novo parâmetro de normal?  Porque, por onde olho, do lado de fora, tudo continua igual (para não dizer pior). Que normalidade é essa que além de carregar um prefixo "novo", traz em si a mediocridade humana, o desvalor contínuo entre as relações e as classes?

Como assim classes?! Não é necessário ser marxista, comunista, petista, esquerdista para levantar este tema. E onde entram as classes nessa história? Infelizmente, não vem apenas do pobre ficando mais pobre e o rico cada vez mais rico por meios injustos. (Aos ricos por mérito, meus parabéns!)

Vejam só:

É só parar um pouco, sem muito esforço, para ver o sentido do "Novo normal". Ele está caracterizado pelas máscaras em nosso rosto ao sair de casa; no "alkingel" na bolsa, no bolso ou na mochila... mas, quem dera fosse só por essas básicas regras de higiene, que devem ser rigorosamente adotadas.

Caminhemos mais um pouco, esforcemo-nos para ver ainda mais além: esse "Novo Normal" traz consigo o entusiasmo dos shoppings reabrindo, dos escritórios funcionando a todo vapor, nas possibilidades daquela 'escapadinha' para abaixar a máscara na roda de colegas e amigos que a quarentena marcou com a saudade física... E podemos já parar por aqui, nessa caracterização.

Por essa pequena pincelada de olho nessas questões, levanto outras: E para quem nunca sentiu a diferença da porta dos shoppings estarem abertas ou fechadas pelo simples fato de serem rechaçadas ao passarem por elas? E àqueles que são tidos como incapazes de pisar em qualquer tipo de escritório, empresa, universidades...? Também tem aqueles esquisitos, anti-sociais, dramáticos, depressivos, insuficientes para qualquer tipo de relação 'que preste'. Ah, eles que permanecem no "Velho Normal", que nunca foi normal, que permaneçam sufocados e submissos à imposições de que tudo aquilo é normal, para eles é normal, deve ser normal. E que não reclamem dessa normalidade!

Quantos vivem conforme Fernando Pessoa uma vez escreveu na poesia "Aniversário":
"Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças  
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida"

Não podemos continuar enterrando esperanças alheias, saqueando da vida os sentidos que a movem, que têm o poder de transformar. Não podemos permanecer acreditando em algo "Novo", onde tudo se encontra "Velho, sujo, estragado..."; não podemos!

Em uma outra poesia, dessa vez chamada "Ah, um soneto...", Fernando pessoa registrou uma grande verdade:
"Há grandes raivas feitas de cansaços"

Cuidemos dos cansados e excluídos, que se revoltam pelo "Novo" apresentado, sem terem lhes dado a chance de viverem algum passado que por alguns tornou-se "velho".

Que os nossos cansaços venham a descansar muitos por aí e que a normalidade seja recuperada, verdadeiramente vivida e não reinventada, que não seja ela mais uma vez caracterizada por um romance de conto de fadas, onde apenas alguns podem ler, ver, sonhar e conquistar.

Vamos acordar! Olhar o mundo a nossa volta! Há tempos o normal sumiu, nada mais está normal, não pode-se aceitar um "Novo Normal" tão doente quanto a sociedade atual.



Pax vobiscum!

2 comentários:

  1. Nossa! Adorei! Teu texto me levou a pensar sobre... E é bom pensar sobre isso né?! Normal? Isso existe mesmo? Já existiu? E ainda se fala em "novo normal"... o meu maior incômodo tá em, como vc bem falou, no fato de que o nosso amado "normal" ser tão doentio... em várias instâncias - um conto de fadas... sendo assim, como que o "novo normal" pode ser no mínimo algo pra ser chamar de "bom", se o referencial não é nem isso?

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    1. Ainda não entendi o que é normal, o que era e, muito menos, o que será!

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