quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A alegoria da caverna – A República (514a-517c)


Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.

Glauco: Entendo

Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.

Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!

Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?

Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?

Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam? Glauco: É claro.

Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?


Glauco: Evidentemente.

Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?

Glauco: Sim, por Zeus.

Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.

Glauco: Não poderia ser de outra forma.

Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.

Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?

Glauco: Sem dúvida alguma.


Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.

Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.

Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.

Glauco: Sem dúvida.

Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.

Glauco: Certamente.

Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.

Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?

Glauco: Claro que sim.

Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que


fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?

Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.

Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

Glauco: Naturalmente.

Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o


caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.

Referência:

A Alegoria da caverna: A Republica, 514a-517c tradução de Lucy Magalhães.

In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré- socráticos a Wittgenstein. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A sociologia em filmes

Em sociologia, aprendemos sobre as relações sociais, seus processos, formas de associação, ou seja, as interações, sendo um ponto de partida para o “porquê”, que buscam entender os fatos, como influenciam e suas consequências na sociedade.  

No filme “Até o último homem”, Mel Gibson descreve, baseado em fatos reais, a vida de Desmond Doss quando se alistou para o exército americano na Segunda Guerra Mundial. Ao longo do filme, Desmond Doss ficou conhecido pelos seus companheiros por “objetor de consciência”, por insistir em não carregar armas e não matar, cujo um dos grandes motivos, segundo o filme, foi o quase assassinato de seu irmão quando pequenos; isso atribuiu-lhe à procura da fé em Deus. Porém, em seu treinamento para a guerra, foi extremamente julgado por seus colegas por causa de sua insistência e fé, mas com elas levou à salvação vários soldados abatidos.

Os processos sociais são mudanças e transformações contínuas, podendo ser associativas ou dissociativas: a convivência e consenso no grupo que geram laços de solidariedade; as formas de divergência, oposição e conflito, responsáveis por tensões na sociedade, respectivamente. Estes atuam através dos contatos e das interações sociais ao longo do tempo. A partir disso, podemos associar o filme com os estudos dos processos sociais.

Em primeiro lugar, o processo de mais destaque é o dissociativo em relação ao conflito, pois em uma guerra temos oposições, rivalidades e o uso da violência consciente dos indivíduos. 

Desta forma, no meio da guerra, ao mesmo tempo em que os soldados realizavam o trabalho juntos a fim saírem vencedores, como um mutirão, precisavam uns dos outros para diferentes táticas, posições e estratégias. 

Uma dessas diferentes estratégias e posições foi de Desmond Doss que se recusava a tocar em uma arma, mas utilizou seus conhecimentos na área médica para salvar os soldados. Este acontecimento está relacionado ao processo associativo de cooperação, na qual grupos trabalham para o mesmo fim diretamente ou indiretamente. 

A partir disso, o “porquê” dele não querer encostar em uma arma e de não matar, vem com a assimilação, um dos processos associativos, que implica em transformações internas no indivíduo como a forma de pensar, sentir e agir, ou seja, assimilando com o quase assassinato do seu irmão quando pequenos, ele fez suas escolhas para toda a vida.

Enfim, percebemos que mesmo durante uma guerra e, ainda, diariamente, estamos interagindo uns com os outros e o processo social é apenas um meio de compreender essas interações.

Autora:

Sabrina Monteiro Rezende
15 anos
Aluna 1º Ensino Médio - Colégio Delta/SP

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Que especialista o quê?

Ao passar do tempo tenho percebido uma crescente alta de "especialistas" em todas as áreas que possamos imaginar, nas que já conhecíamos e em outras que nunca nem ouvimos falar. Reflexo, sem dúvidas, do difícil momento em que vive nosso país ao que se refere à problemas emocionais/psicológicos, oportunidade de trabalho, disputa de mercado e exigências de experiências.

Contudo, a reflexão que levanto hoje para você é simples e pertinente: ainda que seja esse o panorama e cenário atual de nossa sociedade, não justifica, de forma alguma, qualquer sujeito bater no peito, intitular-se "especialista" e profeta de mudança de vida. O perigo posto aqui é grave. Milhares de pessoas, humildes, que buscam mais conhecimento ou ajuda, querem mudar de vida, subir degraus e evoluir. São tantos os que querem encontrar para si um novo rumo, melhorar seu cenário financeiro, ajudar sua família e assim, na maioria das vezes, essas pessoas de bom coração, se enveredam por caminhos que se apresentam com a máscara da facilidade, da oportunidade imperdível, do único e mais confiável lugar que sua vida (em dinheiro) possa ser depositada, então nada mais será o mesmo, tudo será novo - e isso eu não posso negar, o problema é que tudo se transforma não como a pessoa que busca, gostaria e procurava.
Podemos, agora, "dar nomes aos bois" (e as vacas também) como ouvimos no popular: refiro-me  aqui aos coaches sem formação ou de má-fé, que acham que falar "tudo vai dar certo" de fato dará tudo dar certo, que ensinar a gritar frente ao medo e as dificuldades, vencerá pelo grito e tudo se resolverá. Encontramos aqui os visionários, os iludidos que iludem; aos que por serem tão frustrados, sabem como alcançar outros tão frustrados quanto eles, mas humildes, que estão buscando sair de tal condição. Diríamos mais, aqui estão aqueles "malandros", profetas das ideias que não se realizam.

Por experiência própria, já conheci um sujeito desses: tal qual vendia para a empresa um "marketing diferenciado" - como eles gostavam de chamar (sempre achei graça dessa expressão) - , era um marketing voltado para um trabalho particular, HUMANIZADO - o problema, era que esse dito "profissional" não entendia bem de marketing, menos ainda de um trabalho humano, ou seja, de pessoas e seus anseios. Disso concluí mais uma coisa: até uma empresa que precisa contratar outra empresa para lhe dizer qual a razão do seu negócio, qual o sentido do seu trabalho, ela mesma não sabe onde está, o que busca, que e onde deseja chegar. Torna-se tudo muito vazio e ilusório.

Aristóteles guia esse nosso pensamento, pois afirmou ele em sua Obra Sobre o Céu: "um pequeno erro no início torna-se grande no final" e são grandes esses erros que estamos comentando aqui, mas há algo pior: os efeitos advindos desses erros! "Especialistas" em ansiedade e depressão, sem nunca terem cursado Psicologia ou estudado minimamente referências sobre comportamento e personalidades; "especialistas" em pensamentos, filósofos da verdade, que nunca leram um livro de Filosofia; milionários que fizeram seus fundos e sua vida com a promessa "vem e eu te ensino como ficar rico a partir e amanhã", podemos mudar esse texto por: "vem que eu te ensino como me fazer ficar rico com o dinheiro que você mal tem".

Esclareço aqui que não generalizo, mas não nego que é grande o número de indivíduos que se encaixam perfeitamente nessas linhas aqui escritas. Abra qualquer rede social, navegue por 10 minutos (no mínimo) e você comprovará isso.

Santo Tomás já dissera que "a realidade é o fim último do juízo" e foi com muita análise e reflexão que me dispus a escrever essas palavras, olhando bem atentamente a realidade. Torcendo com o coração para que pessoas humildes não caiam mais em tantos golpes e mentiras, que a voz da necessidade não se sobressaia a da Verdade, jamais.


Se buscarmos encontraremos verdadeiros especialistas, porque há grandes pessoas em todas áreas do conhecimento, profissionais de muito valor, dedicados e bem estudados coaches, filósofos, administradores, marketings... que nos ensinam que a vida tem sempre um sentido, motivos para ser feliz, que podemos correr atrás dos nossos sonhos e encontrar a Verdade em realizações justas, porém ... não escondem, jamais, que nessa mesma vida encontraremos sofrimentos, desilusões e com eles aprenderemos também a sermos melhores, mais ainda, apesar das tribulações e no sofrimento podemos encontrar (e encontramos) razões para viver e sermos felizes, como nos ensinou Viktor Frankl.

Por fim, nunca acredite que "os fins justificam os meios", mas faça sempre que os meios consagrem o fim de seus atos. Cuidado por onde tem buscado suas realizações, onde tem tentado realizar seus sonhos. Eles são sonhados dormindo e realizados bem acordados, com a alma e o corpo despertos, atentos. Então, atente-se mais e fuja dos milagreiros emocionais e econômicos, deixe ir para longe as falsas promessas. Esconda-se dos "lobos com pele de cordeiro" e prefira a voz do pastor, que lhe leva à Verdade!

Veritas, spem et vitam nostra!


Autor:
Lucas Mendes
Criador do Blog Filosofia do Hoje
Professor de Filosofia
Graduando em Psicologia

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O medo é uma roupa que nunca sai de moda. E a moda é um medo que está sempre na moda.

A moda é um elemento influente na civilização desde o Renascimento. Atinge um número crescente de campos de atividades da mulher e do homem moderno. Uma percepção da moda deveria fornecer, portanto, para um entendimento de nós mesmos e de nosso modo de agir. E porque em vez de restringirmos nosso olhar ao setor das roupas, não consideramos que esse elemento penetra os limites de todos os outros campos do consumo e pensamos que sua consequente também adentra a política, a arte e a ciência?
A moda afeta o costume e a postura da maioria das pessoas em relação a si mesmas e aos outros. Muitas delas negariam isso, mas essa negativa é contradita por seus hábitos de consumo. Mas é possível dizer que todas as vestimentas servem de alicerce para tal sistema de significados? Duvidoso. É evidente que nem todas as vestimentas podem ser decifradas, de tal maneira que a palavra “moda” tem um referencial maior que “roupas”.

Oh, Milton? O que o medo tem a ver com a moda, ou a moda com a filosofia? Então, escrever um texto filosófico é uma provocação, pois trata-se de uma escrita reservada e vigilante. Os contextos devem ser claros e o estilo breve, caso contrário corre-se o perigo de não ser bem entendido. Daí vem o meu medo, o medo de tomar a decisão de escrever um texto filosófico referente a minha nova área de atuação, portanto, o medo está na moda e é inquietação permanente para a humanidade.


É uma metáfora? Sim. Culpa do medo? Vários medos envolvem a tomada de decisão de homens e mulheres. Existem o medo de errar, medo de perder, medo de fracassar, medo do desconhecido. Mas o medo de tomar decisões deriva da insegurança. Espontaneamente, nós sentimos medo como reação adequada de preservação. Este medo que nos resguarda é considerado um “bom medo”, visto que a carência dele nos abandona expostos à sorte.

Todavia, quando ele advém de maneira excessiva, pode nos neutralizar, furtando nosso livre-arbítrio de escolha. E escolher é, por vezes, uma questão desconfortante.

Certa vez, ouvi de um vendedor que tinha um elevado posto entre os demais vendedores numa loja de shopping. Posto dos sonhos de muitos outros jovens vendedores do mesmo local. Bom salário, nome no quadro de funcionário do mês, excelentes benefícios e o respeito conquistado pelos anos. Do outro lado, uma cliente com aparente estabilidade. Porém, mesmo com contexto benévolo, ela não se sentia feliz e definiu que não queria levar mais o novo vestido. Ela já estava certa de que não levaria, porém sua maior dificuldade era convencer suas amigas da sua sentença. Recebeu críticas do vendedor: “vestido igual a esse você nunca mais vai encontrar”. Todas as vezes que ela ensaiava o “não vou levar”, ela escutava as críticas. O medo a fez insistir numa compra infeliz.

Ser um encarcerado do medo é uma forma restrita de levar a vida. Ao nos encontrarmos com uma situação de insegurança é bom meditarmos à luz da sabedoria do escritor Mark Twain: “coragem não é a ausência do medo, e sim o enfrentamento dele”. Sim, é mais simples escrever do que praticar.

Oh, Milton? Eu compreendi o medo, mas e a relação da moda e a filosofia? A principal incumbência da “moda” para além de ensinar a produzir roupas ou acessórios, é nos fazer refletir sobre o “comportamento” dos consumidores. A notar comportamentos socioculturais e um universo em constante mutação. Essas percepções só acontecem com contribuição da filosofia. É preciso saber e entender a teoria da moda, entender sua existência e o que comunica através de códigos. 
A moda tem códigos? Eu respondo com uma citação do filósofo escocês, nascido em 1795, Thomas Carlyle: “todo o Universo exterior e o que ele contém nada é senão Vestimenta; e a essência de toda Ciência reside na filosofia das roupas”.


Autor: Milton José Júnior, o espião de estilo
Ator, escritor e criador de conteúdo

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A Filosofia no mundo atual


Durante os seus anos acadêmicos, é bem provável que você tenha frequentado (ou frequenta atualmente) aulas de Filosofia, onde sempre tratamos de grandes filósofos e passamos pela Filosofia Antiga até a chegada da Filosofia Contemporânea. Porém, você sabe o que é a Filosofia? Talvez, nunca tenhamos parado para pensar nisso, mas podemos dar aqui uma definição bem simples: “amor à Sabedoria”; considerando assim um filósofo como um amante da sabedoria. Ela basicamente nos ajuda a entender a realidade, através de questionamentos e críticas, além de transformar nosso conhecimento passivo em ativo (“saber pelo saber”).

“Filosofia”, palavra originada do grego philosophia (philos: amor/admiração; sophia: sabedoria), não apresenta sentido prático-material, como construir uma casa, por exemplo, contudo faz-nos perceber que possui uma utilidade de valor, algo ALÉM da prática material. Sabendo disso, podemos dividir as formas de conhecimento em dois tópicos: nominal, onde o conhecimento é superficial, e real, onde há a especificação do mesmo.
Como podemos ver, essa “disciplina escolar” tem muito a nos oferecer, podendo nos auxiliar em inúmeras questões; e por que isso não é valorizado ultimamente? Essa resposta pode ser bem óbvia, na verdade: pois a Filosofia nos proporciona um conhecimento ATIVO, nos fazendo questionar até mesmo as coisas realizadas por autoridades nos dias de hoje; e esse é o objetivo deles, não serem questionados.
Quando vemos os acontecimentos através da Filosofia, podemos viver um “thauma”, palavra de origem grega, que representa admiração ou espanto diante da realidade, a surpresa pela vida. E assim que vivenciamos isso, nosso amor ao saber tende a crescer absurdamente; afinal, apesar de tudo, o saber apresenta valor independentemente da utilidade.

Devemos sempre lembrar que a ciência busca sempre o “como é” das questões, enquanto a filosofia busca o “o que é”, “por que” e “para que” das mesmas. Além de nos oferecer milhares de benefícios, assim como ofereceram no passado, tudo que precisamos fazer é reconhecer e admitir que “todos os homens por natureza, tendem ao saber” como nos ensinou Aristóteles.   



Autora:
Mariana Blasques Lombardi de Morais
15 anos
Aluna: 1º Ano Ensino Médio/SP


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Carta ao "Novo Normal"

Ao que chamaremos "Novo Normal"? De onde vem essa expressão e quem ousou se alegrar ao usá-la? Porque será "Novo Normal", se o que é normal, de fato, nunca foi cumprido e nem se quer fora conhecido?

Será o "Novo Normal" que mudará, então, nossas vidas?! Será ele que falta para que homens e mulheres ajam normalmente?! Quando foi definido um novo parâmetro de normal?  Porque, por onde olho, do lado de fora, tudo continua igual (para não dizer pior). Que normalidade é essa que além de carregar um prefixo "novo", traz em si a mediocridade humana, o desvalor contínuo entre as relações e as classes?

Como assim classes?! Não é necessário ser marxista, comunista, petista, esquerdista para levantar este tema. E onde entram as classes nessa história? Infelizmente, não vem apenas do pobre ficando mais pobre e o rico cada vez mais rico por meios injustos. (Aos ricos por mérito, meus parabéns!)

Vejam só:

É só parar um pouco, sem muito esforço, para ver o sentido do "Novo normal". Ele está caracterizado pelas máscaras em nosso rosto ao sair de casa; no "alkingel" na bolsa, no bolso ou na mochila... mas, quem dera fosse só por essas básicas regras de higiene, que devem ser rigorosamente adotadas.

Caminhemos mais um pouco, esforcemo-nos para ver ainda mais além: esse "Novo Normal" traz consigo o entusiasmo dos shoppings reabrindo, dos escritórios funcionando a todo vapor, nas possibilidades daquela 'escapadinha' para abaixar a máscara na roda de colegas e amigos que a quarentena marcou com a saudade física... E podemos já parar por aqui, nessa caracterização.

Por essa pequena pincelada de olho nessas questões, levanto outras: E para quem nunca sentiu a diferença da porta dos shoppings estarem abertas ou fechadas pelo simples fato de serem rechaçadas ao passarem por elas? E àqueles que são tidos como incapazes de pisar em qualquer tipo de escritório, empresa, universidades...? Também tem aqueles esquisitos, anti-sociais, dramáticos, depressivos, insuficientes para qualquer tipo de relação 'que preste'. Ah, eles que permanecem no "Velho Normal", que nunca foi normal, que permaneçam sufocados e submissos à imposições de que tudo aquilo é normal, para eles é normal, deve ser normal. E que não reclamem dessa normalidade!

Quantos vivem conforme Fernando Pessoa uma vez escreveu na poesia "Aniversário":
"Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças  
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida"

Não podemos continuar enterrando esperanças alheias, saqueando da vida os sentidos que a movem, que têm o poder de transformar. Não podemos permanecer acreditando em algo "Novo", onde tudo se encontra "Velho, sujo, estragado..."; não podemos!

Em uma outra poesia, dessa vez chamada "Ah, um soneto...", Fernando pessoa registrou uma grande verdade:
"Há grandes raivas feitas de cansaços"

Cuidemos dos cansados e excluídos, que se revoltam pelo "Novo" apresentado, sem terem lhes dado a chance de viverem algum passado que por alguns tornou-se "velho".

Que os nossos cansaços venham a descansar muitos por aí e que a normalidade seja recuperada, verdadeiramente vivida e não reinventada, que não seja ela mais uma vez caracterizada por um romance de conto de fadas, onde apenas alguns podem ler, ver, sonhar e conquistar.

Vamos acordar! Olhar o mundo a nossa volta! Há tempos o normal sumiu, nada mais está normal, não pode-se aceitar um "Novo Normal" tão doente quanto a sociedade atual.



Pax vobiscum!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Em tempos de máscaras, os olhos voltam a falar

Em tempos que máscaras escondem a face e suas expressões, resta ao olhar sua devida função há muito esquecida, deixada para trás. Ao longo do tempo o olhar perdeu seu valor, sua essência de comunicar e transmitir a informação do coração, da alma.


Hoje, tomados por uma pandemia, máscaras escondem o sorriso, os traços que comunicavam nossas reações faciais em inúmeras situações. Porém, o olhar está desnudo, agora ele é protagonista e tem a fala principal na vida. 

Talvez, ele se encontre um tanto quanto tímido, pois se acostumou estar nos bastidores; aprendeu como enganar através de um sorriso falso, que ganhando a cena, ludibriava qualquer pessoa seguido de um mexer dos lábios que afirmava: "está tudo bem".

Os olhos não enganam, eles não sabem falar mentiras; agora os olhares se conversam e comunicam dizendo: "não, não está tudo bem". 

Está na hora de reeducar o olhar.


Ele está fadado à encarar a realidade atual, vendo tanta pobreza, tantas mortes, tanto desespero. E alguém há de ter a coragem de fechá-los para esta realidade? (Sabemos bem a resposta) 

A educação do olhar agora é urgente. É direcionado-o para o alto que encontraremos sentido em meio ao caos estabelecido aqui em baixo. Devemos, mais que nunca, usar o olhar como porta de entrada a tantos corações necessitados de uma presença, de um sentido. 


Olha e vê. 

Se quiser que tudo mude, comece assim; olha e não ignora, mas olha e vê. Vê e faça. Faça e não espere nada em troca.

Olha para o que está na sua frente, aos lados e atrás também, estende as mãos e dê sentido à sua vida dando sentido à vida de outros. Experimente olhar e deixar-se encontrar pelos olhares que hoje procuram um abrigo.

Preocupe-se menos com o que está coberto e mais com os olhos nus, expostos, clamando por vida!

"O que interessa [...] 
é atribuir um olhar poético sobre a realidade, 
lançando-se no mar de suas possibilidades" 
(Luciano da Silva Façanha e Leonardo Silva Sousa. Angústia e desespero como possibilidade de construção da existência humana a partir da filosofia de Sören Kierkegaard)

A alegoria da caverna – A República (514a-517c)

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, ...