quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Cheios de nada & vazios de tudo


É importante compreender que o conceito de “nada” possui duas vias na Filosofia: a primeira, herdada de Parmênides (530 a.c – 460 a.c), explica o “nada” como “não-ser”, sem existência, o que não é em totalidade, nem mesmo pode ser pensado. Depois, Platão (428 a.c – 348 a.c), indica este mesmo conceito como “negação”, aquilo que não é uma coisa, mas é outra.

Fazendo o que é o intuito primeiro deste blog, trazer a Filosofia para os dias atuais, podemos ver um grande número de indivíduos que caminham em busca do nada, combinando as duas versões de conceitos do parágrafo anterior: alguns vão em direção ao nada, sem objetivo, sem esperança de encontrar algo, buscam aquilo que não possui existência, nem mesmo em seus pensamentos. Por outro lado, há aqueles que vão atrás do nada enquanto erros, desvios, desilusões; esses têm um objetivo, querem chegar a algum lugar, mas quando chegam entendem que não era aquilo que queriam.
           
Esse ciclo de buscas e desencontros expõe à dialética do nada e do tudo!


Vivemos uma vida de momentos, sem expoente à longa durabilidade de felicidade, bons sentimentos, fidelidade. Aliás, tudo se tornou objeto de julgamento pelo tribunal da comparação; sendo a sua felicidade verdadeira, suficiente ou não, se maior que a o outro. Assim, como os outros sentimentos e também as relações, estas passam pelo júri comparativo.
            

Eis a era do autoengano, já mostrava com muita clareza Zygmunt Bauman, que vivemos tempos líquidos; o amor é líquido, a modernidade é líquida e com ela tudo o que foi relativizado e modernizado. Não existe mais segurança da felicidade, não se pode ser feliz sem expor nas vitrines digitais sociais. Mais além, é condenado aquele que defende um caminho feliz longe do ter, mas garantido pelo ser.
            
Pessoas tentam fugir de si, mergulhando no nada e buscando o tudo que nunca será encontrado neste caminho. Dentro está o vazio, que é semeado, cultivado e frutificado pelo nada. É o que se encontra. É onde se vive. “Se olhares demasiado tempo para dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar para dentro de ti”. (NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal, 146).

            
Não se satisfaça com o pouco, que leva ao vazio. Queira mais, busque tudo, encontre sentidos e valores que lhe ajudem neste caminho. Não tenha medo! Não deixe que lhe roubem sua identidade, sua verdade.
            
Encerro deixando algumas questões que pode servir como bússola neste momento. Pergunte-se: “Onde está minha singularidade? Aonde foi parar minha autenticidade? O que está pautando minhas decisões? Eu tenho tudo e parece que não tenho nada? O que significa para mim tudo e nada?”.
           
Espero que tenha um ótimo encontro consigo e seja feliz!

Nemo dat quod non habet!

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